sexta-feira, janeiro 20, 2012


                        Olha o trem...

                                                      

Mais um dia estava começando. Uma jornada de trabalho findando.
Estava cansado. A noite fora longa.
Maio é um mês que o frio e a umidade da região já começam a formar denso nevoeiro. Não gosto de nevoeiro. Encobre tudo ao redor. O céu, as estrelas, a lua e até os pensamentos.
O cérebro parece que esvazia, o barulho da máquina vai tomando conta e nos hipnotizando. Aí complica . Não dá para dormir.
Como deixar 40 vagões carregadinhos de cimento, madeira, cerâmica, mais os tanques de combustível ser guiado por um quase moribundo? Era assim que me sentia quando o sono chegava e não podia deixar que ele se instalasse.
 Sempre fui um bom maquinista. Atento, pulso firme, responsável, cordial com os colegas na companhia. Afinal, era um bom emprego. Federal, com regalias, boa aposentadoria. E ela  se aproximava. Contava os meses que faltavam para chegar e ser a companheira de lazer, nas pescarias, nas viagens sem preocupações para o resto da vida.
Estes pensamentos até me deixava mais animado, apesar da sonolência que permanecia.
        Estava próximo da penúltima estação. Mais um cruzamento e  estaria lá.
No tempo dos passageiros ali pegava muitos estudantes que iam estudar na cidade. Levantavam muito cedo os coitadinhos. Tinha  criança de seus 13 anos que iam  a estação em no centro da cidade e depois caminhavam até o colégio em diferentes pontos .
Atualmente, o que ocorria, de vez em quando, embora fosse proibido, era dar uma carona para alguém conhecido que se empoleirava junto na cabine. Hoje, para tirar o sono, bem podia ter sido um desses dias.
O trem estava se aproximando da casa de pedra junto aos trilhos, bem no cruzamento.  Ali estava ela.
O apito! Devia ter apitado antes. Não podia vacilar. Está certo, era cedo. Não havia movimento no cruzamento esta hora, mas o sinal é obrigatório.
As árvores nas proximidades dos trilhos atrapalham a visão dos que passam naquele ponto.
 Gostava de cumprir à risca as regras de segurança. Devia apitar bem antes para sinalizar que se aproximava. Na próxima jornada tomaria mais cuidado. Iria levar mais café. Um rádio de pilha, embora gostasse do papo interior desenvolvido na cadência do trem. Era como se a máquina colocasse seus pensamentos no rumo certo. Nos trilhos, como se costuma falar.
Desta vez, porém foi diferente. Os pensamentos saíram dos trilhos.
Só foi possível perceber quando arrastava metros à frente, o carro que não ouviu o apito do trem e atravessou os trilhos...


  Publicado no livro:Contos de Verão- Dezembro de 2011
          Publicado na Antologia on line:

          http://www.camarabrasileira.com/cve11-030.htm


         Publicado  no site: 
http://www.recantodasletras.com.br/contoscotidianos/3598590
              Data:2012.04.06

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quinta-feira, novembro 10, 2011










Ela tinha 16 anos quando conheceu aquele rapaz. Conheceu-o de uma maneira não convencional. Não fazia parte de seu círculo de amizade- nem da rua onde morava nem da escola.

Como gostava de ler revistas, aquelas que denominavam foto-novela e estas, geralmente, apresentavam uma seção de correspondência ela resolveu escrever, enviando seus dados pessoais. Não mencionou o nome verdadeiro, mas um pseudônimo. Um nome que parecesse verdadeiro.

Seria uma brincadeira. Uma forma de passar o tempo, se divertir.

Foram muitas as cartas recebidas. Selecionou algumas e passou a responder.

No começo foi novidade, mas depois, passou a ocupar demais seu tempo que precisava dividir entre o colégio, os estudos, as aulas de inglês, o curso de decoração, as vivências em família.

Ficou se correspondendo com uma única pessoa.

Um dia, passados alguns meses, para surpresa sua e da família ele aparece para conhecê-la. Tinha parentes em sua cidade.

As visitas começaram a ser mais frequentes. Ele queria compromisso sério, namorar , casar. Ela só queria viver. Sequer havia pensado nisso. Aliás, tinha sim, mas a imagem que lhe vinha à mente de se imaginar casada e com filhos tão nova, chegava a ser aterrorizante.

Embora o pai fosse contra, o namoro continuou, as intenções dele sendo reiteradas a cada encontro, em cada insinuação mais intensa, nos beijos, nas carícias mais ousadas. E ela, pensando em como sair desta situação que parecia cada vez mais atrapalhada nas ocasiões que ele vinha em sua cidade. Por carta era mais fácil mostrar suas razões, porque não tinha a réplica imediata.

Trouxe familiar para tornar o compromisso mais efetivo, embora a contragosto dela e como o dito cujo tinha um sobrenome influente, outros parentes dela não se fizeram de rogados e retribuíram a visita. E a teia se formando. Ele a cercava com sua presença, suas carícias cada vez mais insinuantes e os demais mostrando a vantagem de casar com alguém com nome e dinheiro.

Sabia que se dissesse não, poderia encontrar resistência. Já estava cansada da insistência dele em ter um relacionamento mais intenso. Apesar de não haver nada que desabonasse a criatura, a não ser o fato dele também ter mentido o nome, tudo o credenciava. Já estava na faculdade, era carinhoso- até demais para quem não estava a fim de intimidades.

Nas férias que ele veio trouxe um anel de pérola, com a intenção explícita, pela simbologia nele contida de mostrar o quanto estava disposto a dar pela companhia, pelo compromisso ou o que mais desejasse, a ponto de afirmar todo orgulhoso que tinha tão boas intenções que quando casasse, ela nem precisaria trabalhar.

Faculdade para que? Ele lhe daria tudo que desejasse. Não havia necessidade. Mulher dele não trabalharia.

Ela aceitou apenas o anel. Nunca recebera nenhum, nem nos seus 15 anos.

Tinha medo de recusar e ele fazer um drama e a família ficar contra ela.

Tudo que ele lhe oferecia velada ou claramente ela recusava.

Embora não revelasse já tinha tomado uma decisão.

Quando as férias terminaram ele foi embora.

Como começou, ela rompeu a relação.                                    

Uma carta clara e definitiva.

Seus sonhos e sua liberdade não tinham preço.
Publicação impressa no livro Tempo de Tudo, Contos
Publicação na Antologia on line: CBJE
http://www.camarabrasileira.com/tt11-039.htm
Publicado no:

http://www.caestamosnos.org/autores/autores_i/Isabel_C_S_Vargas-1.htm

Publicado no site:
http://www.recantodasletras.com.br/contoscotidianos/3598584
Data:2012.04.06






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Há anos frequento este local. É um bar simples, como simples são os habitantes no entorno. Bairro operário, de gente trabalhadora e ordeira. Em geral, os que aqui aparecem são pessoas conhecidas. Não sou dado a bares, bebida, algazarra. Gosto de uma bebidinha em casa, com familiares, geralmente no final de semana para relaxar.

Acontece, que a vida muda. A casa , antes cheia foi se tornando solitária. Os filhos crescem vão fazer a vida nos locais que encontram trabalho e guarida. Minha filha mais velha está em outro estado. O filho do meio está na capital , a menor sim, está mais próxima, mora na cidade, mas em outro bairro. Geralmente aparece de 15 em 15 dias, devido à escala de folga no hospital. Vem com marido, meus dois netos.

Eu fiquei só, após a morte de minha mulher. Não quis saber de casar de novo. Estou bem assim. Consigo dar conta das minha coisas. Simplifiquei tudo, dispensei ajudante e eu mesmo faço as coisas da casa. Muitas vezes faço as refeições no bar, outras faço alguma coisa que me apraz. O café, volta e meia tomo aqui mesmo.

É a oportunidade para uma prosa com algum conhecido. Vejo televisão- que é maior que a minha- olho a vida que se desenrola.Às vezes se enreda, até parece que dá nó cego que não dá para desatar . Aí não entendemos mais nada. É uma confusão só.

Pois é assim que vejo o que se descortina à minha volta nesse momento.

Já vi coisas engraçadas, tristes, compreensíveis dada a natureza do ser humano. Observei de minha cadeira muita cena de amor, apertos , brigas de ciúme , traições, crianças que cresceram e se perderam outras que se ganharam e se tornaram pessoas de bem. Vi crianças criadas só pela mãe, outras pelo pai e avós. Achei que já tinha visto de tudo. Pois não é que me enganei ? Não sou preconceituoso. Nunca fui.Mas tem coisas que não aceito, uma delas é a droga. Droga e desrespeito com os mais velhos. Acho que respeito e gratidão ainda colocam o mundo nos trilhos.

Droga, tira o homem de si mesmo, da família, da vida.

Por isso, não posso me calar diante da cena que presenciei na mesmo bar de sempre, enquanto esperava para tomar meu café de todo dia, vendo as cenas da vida real se desenrolarem paralelas às da novela- que já não espanta tanto como antigamente- pois às vezes me parece que é tudo uma coisa só, a vida e a novela.

Não consigo entender uma comemoração sem pai e mãe juntos- ou será que ali tinha um pai e mãe? Onde ficou a partilha do bolo com todos? Ou não havia dinheiro para isso ?

Mas havia para outras coisas ? Que foi comemorado ali na minha frente que eu não entendi? Ou não houve comemoração e sim iniciação? Que velas foram acesas? As que guiam para caminhos de luz, de alegria , de gozo ou as que indicam o caminho da morte, da dor, do sofrimento?

Drogas de forma escancarada?

Ou uma queima para fugir dela?

Confesso que estou perdido.

Não sei se choro pelo garoto, se pela minha impotência e da sociedade de fazer algo definitivo e contundente para acabar com as mazelas que detonam famílias como bomba

em uma tragédia por demais anunciada , presenciada e não evitada.

Alguém me explica, por favor?
 
Publicado no livro e na Antologia on line
 
Selecionado  como dos melhores contos do ano na CBJE
Publicado no livro e na Antologia on line

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sábado, outubro 22, 2011


As primas








Solange e Betina eram primas. Pelo lado paterno. Isso significa, pelo menos neste caso, que ambas se encontravam só na casa dos avós, esporadicamente, em dias de aniversário. Solange vivia com a mãe que trabalhava em um hospital e a avó materna. Não tinha irmãos. Os pais eram separados.

Betina vivia com os pais e irmãos. A mãe não trabalhava fora e estava sempre cuidando dos três. Por ser a mais velha tinha a tarefa de cuidar dos irmãos menores.

O pai era muito rígido. Essa era a imagem que a mãe passava. Nada podia desagradá-lo.

Solange era uma morena linda com pele em tom de mel recém colhido, translúcido, brilhoso. Os olhos de um verde mar capaz de afogar quem neles se jogasse. Talvez por não ter consciência da própria beleza ela se tornasse ainda mais encantadora. Não era daquelas meninas bobas, metidas que se achavam a maioral. Era simples, alegre, comunicativa. Às vezes se encontravam na rua, em outras Solange passava na frente da casa de Betina. Sempre trocavam algumas palavras, por mais rápidas que fossem. A simpatia era mútua.. Mas não andavam juntas. Nem se visitavam.

A diferença de idade devia ser de uns três anos . Solange era mais velha.

Talvez por influência materna foi trabalhar mais cedo e estudar de noite.Mal sabia ela que ali começaria sua desgraça.

Faceira, agora poderia além de custear o estudo ,comprar algumas coisas que toda moça cobiçava para se enfeitar, passear, ir ao cinema, pois as opções não eram muitas não.

Não demorou para Solange chamar a atenção dos rapazes. Se fosse só de rapazes solteiros, descompromissados não teria problema algum. Estariam em pé de igualdade, jovens, inexperientes, sem manhas e sem ardis.

O pior é que Solange chamou a atenção do patrão. Mais velho, casado, com filhos, bem estabelecido, conhecido na cidade.Mas se só ele tivesse ficado enfeitiçado seria menos perigoso.

Ela também provou da poção mágica e ficou enfeitiçada.

Tanto que ele montou um apartamento para ela morar.

A mãe que vivia em situação idêntica na pode cobrar outra atitude.

A família do pai, logo passou a falar que a menina tinha se perdido. Coisa inconcebível. Não falavam às claras. Era tudo em meio tom, meias palavras, à boca pequena para não espalhar o que já era notório, pois isso era pela influência materna. Só podia ser. Coisa ruim sempre é de parte do outro.

Mas Solange apesar de apaixonada era lúcida e sabia que daquela situação não poderia esperar um desfecho satisfatório. Ou, percebeu que o amor não passara de um arrebatamento de jovem e que não era coisa para vida toda, afinal estava só começando a descobrir o mundo, as sensações. Refletiu. Era só explicar que tudo estava acabado, ele continuaria sua vida com sua família e ela seguiria a dela.

Iria estudar e trabalhar em outro local. Não se veriam mais e pronto. Tudo ficaria solucionado.

Iria dizer isso para ele na manhã seguinte. Iria embora e seria o fim de tudo.

E foi o fim, quando a vizinhança escutou os sucessivos estampidos dos tiros.

Solange ficou ali.

Betina jamais esqueceu a prima.

Publicado na coluna do Centro Literário Pelotense no Diário da Manhã-Pelotas-RS
Data:2011.10.23  Sob o pseudônimo de YZA. página 14

Publicado no Livro:Contos de Grandes Autores Brasileiros-Edição 2011
Seletiva em Setembro 2011-Edição a ser lançada em Novembro 2011-CBJE

Antologia on line da CBJE-

Publicado no blog:PENSAMENTOS_DISPERSOS
Data:2011.10.22
Publicado no site:www.recantodasletras.com.br (com algumas alterações )
Data:2012.01.20

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