quarta-feira, julho 14, 2010



INVERNO







E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão inesquecível.


                                               Albert Camus





O inverno esta sendo rigoroso. Cruel. Por dentro e por fora.


Olho para o céu e vejo nuvens de chumbo. Pesadas. Muito pesadas.


Meu coração fica mais apertado. Pequenino. Nele não cabe minha angústia, meu medo, minhas tristezas, minhas dores. Transborda como riacho aumentado pelas águas da tempestade.


Olho à minha volta à procura de um raio de sol, de uma nesga de céu que me permita enxergar um par de olhos azuis , doces, tranqüilos, cujo aconchego e calor que nos passa é maior que o das labaredas de uma lareira nas noites quentes de inverno.


Não consigo mais achar meu lugar neste mundo. Sinto-me fora de qualquer contexto.


O presente é pesado, arrastado. Tem a frieza do mármore das tumbas.


O futuro é uma incógnita. Haverá futuro depois da hecatombe? Depois que nossa vida se transformou em uma enlouquecida Babel de emoções? 


Lembro do berço próximo a mim. Dos movimentos de descoberta do mundo. Do sorriso maroto, do engatinhar, dos primeiros passos, primeiras palavras.


Lembro sua tranqüilidade, seus super-heróis, seus quebra-cabeças, dos carrinhos, dos jogos de bola, o amor pelo áureo-cerúleo influenciado por mim,o fervor gremista inspirado no pai.


Tenho presente em minha memória quando fostes Jesus entrando em Jerusalém, montado em um pônei , na tradicional encenação do colégio.


Uma infinidade de doces momentos vividos com a intensidade que a vida e o tempo permitiam.


Ah, se pudesse começar de novo. Faria tudo igual, porém com muito mais beijos, milhares se possível, abraços bem apertados para não perder a sensação de proximidade e calor. Sorrisos, muitos, infinitos pela quantidade de emoção e carinho de ti recebidos. Que falta fazem estes tesouros neste momento...


Talvez tivesse feito mais festas embora sempre tivesse respeitado o seu jeito de ser, sem exposição, sem exageros. Só desejava a presença da família, incluindo sempre os idosos por quem nutria a maior ternura, os amigos- os mesmos da infância- e os inúmeros que foi conquistando no decorrer de sua vida.


Penso, relembro,sorrio internamente a cada lembrança.


Nas lembranças me encontro. Acho um território conhecido, onde me acomodo confortavelmente e desfruto de momentos deliciosos de alegria, aconchego e amor.


Neste lugar, desaparecem as nuvens de chumbo, que encobrem o céu e a esperança.


No calor das minhas recordações, não há inverno.


Em meio a doçura das recordações, o sal das lágrimas me traz para a realidade.













Publicado no Diário da Manhã-Pelotas-RS
Data:2010.07.20
Publicado no site:www.paralerepensar.com.br
Data:2010.07.20
link destaque em 2010.07.21

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