segunda-feira, abril 28, 2008

CONTRASTES



Em início deste mês de abril tive a oportunidade de assistir, de passagem, uma solenidade em plena orla de Salvador. Diante de autoridades civis e militares estava sendo realizada a entrega de 31 carros de bombeiros para a população baiana. Para não deixar dúvidas estavam todos os veículos lado a lado expostos, novinhos em folha.
Não pude deixar de me indagar, como gaúcha, o que estaria recebendo nosso estado? Mais dissabores, dificuldades, entraves em negociações, posto que aqui não é o partido do governo federal que está no Piratini.
Lembrei de nossos carros de bombeiros em Pelotas e senti o quanto estamos distantes do poder, da roda de influência.
Os nossos bombeiros não são menos valorosos, capazes, eficientes do que os baianos, melhor dizendo do que qualquer outra corporação. Creio que é uma das raras instituições que são unanimidade no país em razão dos relevantes serviços prestados. Nossos heróis anônimos, mas de inconteste valor , ao contrário dos “heróis” do BBB, que, aliás, também ganharam seus carros.
Outras constatações:
A Bahia é linda, o povo é alegre, o mar maravilhoso, água límpida, sem poluição, mas em muitos lugares há muita sujeira deixada pela beira da praia. Não pertenço a nenhum movimento pró ecologia, mas não pude deixar de tirar cacos de vidro que encontrei na praia, para evitar danos, quiçá de extrema gravidade em alguém menos avisado ou distraído. Além dos vidros avistamos isopor, tampas de garrafa, preservativo, sacos plásticos, papel de salgadinho, pedaços de madeira. Falta de conscientização. Isto na praia da Barra, pois na orla não há lixeiras, só na calçada, que fica no alto porque para ir à praia é necessário descer uma escadaria. Considerando a distância, o banhista já deixa tudo pela beira da praia, numa atitude de desamor pelas belezas naturais desta tão louvada terra em prosa e verso e outras linguagens.
Inúmeras obras demonstram o grande fluxo de dinheiro empregado, talvez pelos laços de amizade com o paço real, ou pelas eleições vindouras. Ao mesmo tempo, a quantidade de prédios abandonados, em ruínas, não passa despercebida aos olhos mais atentos. A caminho do Bonfim não dá para ignorar o gritante contraste nas encostas dos morros.
O sentimento que me acometeu, ao visitar as igrejas do centro histórico, Patrimônio da Humanidade, foi muito estranho.
Visitação mediante pagamento. Não me refiro ao valor, nem importância paga aos guias, mas o fato de, por exemplo, a Igreja de São Francisco só abrir terças e domingos. Se não pagássemos para assistir a um pequeno espetáculo de som e luzes, onde era narrada a história da construção e onde eram mostradas as relíquias, não era possível entrar.
Imaginei quanta dor deveria haver por trás de todo aquele ouro, pois os negros nem tinham acesso à igreja (claro que não posso deixar de pensar também na grandeza de quem esculpiu toda aquela obra). Senti que aquele templo até hoje não é do povo, nem para o povo. Era dos senhores, das elites o que parece não mudou muito. Em contrapartida, após subir as escadarias do Bonfim, constatei não sem me emocionar que ali sim, estava a igreja do povo, de portas escancaradas, com liberdade de entrar, olhar, sentir, tocar, rezar, transitar sem qualquer impedimento que não aquele determinado pelo bom senso de cada um, embora haja no lugar um segurança para evitar abusos.
Na parte externa uma profusão de ambulantes, uns organizados, outros nem tanto.
Para ter acesso só o desejo ou busca individual de algo transcendente, ou então, curiosidade pelo local, como ponto turístico.
Senti que aquele era um templo que sintetizava todo o sincretismo religioso da Bahia. Não dos conquistadores, embora até pudesse ter sido nas origens, mas de todos aqueles que lá deixaram seus fervorosos agradecimentos, do povo em geral, dos mais ou menos devotos, do simples visitante, que era acolhido pelo pároco.
Lá flui uma energia leve, positiva e renovada.
Outro detalhe a chamar minha atenção, uma praça central, em Campo Grande (aqui até me posicionei contra o cercamento da Praça Cel. Pedro Osório) e outdoors com obras de artistas famosos do estado, numa grande exposição a céu aberto, divulgando os trabalhos e humanizando o local, numa iniciativa de uma importante fundação baiana.
Bela Iniciativa.
Pude verificar que Salvador já está preparando o próximo verão, ou seriam as próximas eleições?
Publicado no Diário da Manhã-Pelotas-RS
Data:2008.04.28
Publicado no site:http://www.olhasoaqui.com
Data:2008.04.29

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