quinta-feira, abril 05, 2012


                                      REMINISCÊNCIAS       

                                                       Isabel C S Vargas

             Ao passar por uma padaria senti o cheiro do pão ao sair mais uma fornada. De imediato fui remetida aos tempos de minha infância. Adoro este aroma.Coisa curiosa, pois pode parecer que tive uma infância maravilhosa e, no entanto, ela foi cheia de dificuldades, de carências materiais.
          Outra responsável por lembranças é a chuva, ou melhor, o odor que a terra exala em contato com a água da chuva. Não sei explicar com exatidão quando isso ocorre, mas creio que é em tempo de calor e de seca.
           Sempre morei em casa. Talvez por isso, pelo contato mais direto com o solo essa ligação seja explicada.
           Ao lembrar esta época, recordo de uma casa de madeira ao fundo de um grande terreno. Grama verde, borboletas e cigarras voando na primavera e no verão. Vejo-me cuidando de minha irmã menor e, no inverno que embranquecia o pasto, ouço meus intermináveis acessos de tosse. Volta uma grande sensação de impotência. (Ou quem sabe ela sempre esteve aqui escondida).
        Reporto-me ao nascimento de meu irmão, em épocas mais distantes ainda, da minha felicidade ao exibi-lo às visitas como se fosse meu bebê e das minhas angústias quando ele adoeceu e quase se hospitalizou.
        O gatilho de minha infância é detonado quando ouço alguma música esquecida no tempo. Lili (acho que é esse o nome) é uma delas.
         Associo ao passado, as balas de goma, aquelas ainda sem formas diversas como agora, peito de frango desfiado, balas de guaco, xarope caseiro feitos por minha avó, cuja folha era colhida direto na planta que se espalhava por cima da parede do tanque. Ainda, o doce de figo, cujo pé era possível enxergar da janela de seu quarto.
        Na Páscoa, ovos de açúcar, bem mais acessíveis que os de chocolate; ninhos feitos em cestos de vime ou caixas cuidadosamente decoradas com franjas de papel de seda. Uma grande expectativa se  instalava, um grande prazer fazê-los.
        Em um breve insight percebo que isso talvez explique a luta constante contra o excesso de peso.
       Volto à realidade e percebo o que poderíamos considerar à época como algo desagradável, o tempo torna doce, carregado de nostalgia, porque junto destas lembranças estão pessoas que nos foram caras. Apesar do tempo decorrido, permanecem indeléveis em nossa vida pelos ensinamentos, pelas vivências e pelo amor que nos uniu.
       
 Publicado no Diário da Manhã-Pelotas-RS
 Data:2012.04.05 página 04- Tribuna do Povo

Publicado no site:www.icsvargas.blogspot.com

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