segunda-feira, junho 22, 2009

ENTRE AS NUVENS


Antes de vivermos, a vida é coisa nenhuma, mas é a nós que compete dar-lhe sentido, e o valor não é outra coisa senão o sentido que tivermos escolhido.
J.P.Sartre

Estou no avião que me traz de volta para casa. Minha visão é a de uma bela pintura feita por um artista. Raios de sol refletindo-se em um céu azul no qual nuvens de algodão servem de almofadas para aparar sonhos, lembranças ou medos daqueles que confinados neste pássaro de ferro estão soltos no universo patrulhado por radares, computadores e toda parafernália que serve para facilitar a vida de todos, mas não garante a felicidade de ninguém.
Vizinhos dos bancos atrás de mim estabelecem uma conversação amigável iniciada pelo costumeiro “de onde você vem? Quanto tempo vai permanecer? Que tipo de negócio trabalha?” e uma profusão de outras perguntas cujas respostas parecem formar elos que ao se interligarem dão sentido à vida de cada um. O que ouvi pareceu mais uma demonstração de poder, status, (embora o tom amigável) mostrando o quanto o “ter” parece superar o “ser” nos dias atuais, caracterizados pela fluidez no consumo e nas relações.
Para passar o tempo, me distrair e me desligar da conversação alheia, abri um livro recém comprado, justamente com esta finalidade, ou seja, preencher lacunas, como a do tempo de voo.
Logo no primeiro capítulo me deparo com perguntas tais como: De onde você veio? Do que se orgulha? Que família você formou?
Minhas lembranças saltam - como os peixes que pulavam nas águas límpidas de Recife - de um passado distante e relembro a infância pobre - as dificuldades, a falta de perspectiva - transformada em semente e combustível de sonhos que foram realizados aos poucos.
No segundo capítulo a autora fala do valor inestimável que é descobrir em meio às atribulações diárias uma lembrança carinhosa, reconfortante capaz de tornar o momento vivenciado mais doce.
Imediatamente brotam de meu coração duas lembranças carinhosas: minha mãe e minha neta, lembranças estas que me fazem umedecer os olhos de lágrimas que não são percebidas por meu marido que ao meu lado, observa o imenso horizonte pela minúscula janela.
A lembrança de minha mãe, a origem, o passado (presente eterno e inesquecível), a outra, minha neta (presente divino) o futuro, radioso, esperançoso refletido em seu maravilhoso sorriso. Ligando as duas imagens a minha realidade, os meus filhos, meu orgulho.
Junto estas lembranças à mensagem que encontrei no celular, momentos antes da partida, enviada por meu irmão pedindo notícias e me dou conta que apesar da distância do solo âncoras fortes me prendem ao solo e me sustentam e que onde quer que eu esteja os terei sempre comigo num elo indestrutível capaz de apagar qualquer aborrecimento do cotidiano.
Fecho o livro para escrever. Deixo para continuar a leitura mais tarde.
Publicado no Diário da Manhã-Pelotas-RS
Data:2009.06.22
Publicado no site:http://icsvargas.bloguepessoal.com/
Data:2009.06.22
Publicado no site:http://www.textolivre.com.br/
Data:2009.06.22
Publicado no site:http://www.olhasoaqui.com/
Data:2009.07.01
Publicado no site:http://www.wmulher.com.br/
Data:2009.07.03
Publicado no site:www.recantodasletras.com.br
Data:2012.01.31

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