sexta-feira, janeiro 20, 2012


Ritual


Como de hábito levanto-me , faço a higiene , como alguma coisa e saio, não sem antes pegar meus objetos indispensáveis para a peregrinação diária- a bíblia , o terço.e o meu crucifixo.
Gosto de ler as passagens, os salmos , de cantar os hinos de louvor a Deus .Gosto daqueles mais tradicionais, mais solenes . Hoje tem algumas em ritmo mais moderno que eu acho até desrespeitoso com Deus, Jesus, Maria e os santos em geral.
Modéstia à  parte, tenho boa voz, canto bem e alto. .Tanto que às vezes pego as pessoas me olhando um tanto desconfiadas - isto quando dá o acaso de cruzar o olhar, porque não fico me exibindo, nem olhando para os outros.   Devem achar que sou louco. Mal sabem que eu também já pensei isso. Mas foi em outros tempos.  Sou assim, meio bicho do mato, de pouca conversa e poucos olhares. Vivo dentro da linha que tracei para minha vida. Pelo menos  acho que fui eu.
Cumpro um ritual diário.
Vou na missa todos os dias.
Antes fico ali horas a fio. Passeio na volta , olhando cada detalhe da parte de fora, até porque tem hora para abrir.O interior conheço cada detalhe. É como se fosse minha casa. Acompanhei as poucas mudanças que ocorreram.Vou ali desde pequeno, antes de sair a correr mundo à procura de explicações para coisas inexplicáveis ou para fugir dos caras que me procuravam.
Quando voltei e ainda não podia me expor muito, era onde eu ficava.
Chego cedo, fico sentado no banco embaixo da árvore, bem de frente para a porta. Leio, peço perdão, rezo. O terço todinho.Enquanto isso vai me subindo um sentimento que não sei explicar e me lembro de onde e como eu poderia estar  e tenho vontade de beijar os pés de Jesus por me permitir  andar por tudo . É quando eu me ajoelho e beijo o chão e fico de braços abertos agradecendo por esse mundão todo à minha disposição.
Em outras ocasiões fico de pé todo o tempo, afinal sacrifício , penitência e jejum limpam as impurezas da alma. Fico ali desafiando os postes e ver quem permanece mais tempo durinho, estaqueado só olhando para cima com aquele olhar de Jesus Cristo, só olhando pro pai, menos na hora algoz, claro, quando ele não agüentava mais e baixou os olhos de tão desanimado. Sei bem como é isso.
Agora não baixo mais . Ando sempre empertigado.O olhar sempre num ponto fixo. Sempre olhando para frente, reto, sem olhar para trás nem para os lados. Só para cima e para dentro de mim.
Talvez por saber tanto do cara e  tudo que ele deve ter sentido que ao me olhar no espelho até me acho parecido com ele. Quando não tinham me cortado o cabelo e a barba então,era mais ainda. Quase igual.
Aí depois de todo esse  ritual diário sento na porta da igreja e ali eu fico todo dia até a hora de assistir a missa e encerrar meu dia .Até recomeçar tudo de novo.

Publicado no livro:
Conto publicado no Livro "Contos de Grandes Autores Brasileiros" - Outubro de 2011
Publicado na Antologia on line:

Publicado no site:www.recantodasletras.com.br
Data:2012.01.20
Republicado no:http://www.recantodasletras.com.br/contoscotidianos/3503724
Data:2012.02.16


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